DOCUMENTO DE ARQUIVO EM DESTAQUE | Maio/2026

Continuando a dar destaque ao património documental arquivístico do Município de Almeida, partilhamos hoje o livro de Assentos dos Expostos, de 1857 a 1863.

Historicamente, um exposto era uma criança abandonada à nascença em locais destinados para esse fim, nomeadamente as Casas da Roda. Estas casas tinham um mecanismo próprio instalado numa janela, geralmente um cilindro de madeira que girava sobre um eixo – a chamada roda. A pessoa colocava o bebé do lado de fora, rodava o cilindro, e quem estivesse no interior retirava a criança sem ver a pessoa do outro lado.

Eram várias as razões que levavam os progenitores a tomarem a decisão de abandonar os seus filhos nestes locais, motivadas ou pela pobreza extrema ou pela preservação da “honra”. Muitas famílias já tinham vários filhos e não conseguiam alimentar mais um… Por outro lado, numa sociedade profundamente religiosa e moralista, ter um filho fora do casamento era considerado um grave pecado e uma vergonha para a família. Mulheres solteiras ou vítimas de abuso sexual abandonavam os filhos na Roda, para evitar o ostracismo social ou a expulsão de casa, pois o anonimato da roda permitia ocultar da sociedade a gravidez e o parto. Deixavam muitas vezes um sinal com o bebé, para que fosse possível mais tarde reconhecer a criança, o que indicava que o bebé não tinha sido abandonado por falta de amor, mas por falta de condições para ser criado…

O assento n.º 163 deste livro, cuja imagem partilhamos, refere-se a uma bebé abandonada na Casa da Roda, na noite do dia 5 de junho de 1861, “envolta em uns trapos”. Passados cinco dias, “foram-lhe postos os Santos Óleos”, ou seja, foi batizada, sendo-lhe dado o nome de Adelina. Foi depois entregue “à ama Maria Sancia do Freixo, concelho do Sabugal, para a nutrir e tratar com todo o desvelo”. À data, a aldeia do Freixo pertencia ao concelho do Sabugal, tendo passado para o concelho de Almeida por decreto de 7 de dezembro de 1870. Continuando a ler o registo, percebemos ainda que as amas, a quem eram entregues estas crianças, recebiam um salário: “vencendo o ordenado mensal de oitocentos reis, estabelecido pela Junta Geral do Distrito”. No canto superior direito do assento, há sempre uma informação adicional, registada depois da data do assento propriamente dita. Muitas das vezes a informação acrescentada refere que a criança não sobreviveu, mas neste assento em particular foi escrito o seguinte: “Baixa por ser entregue à sua Mãe em 31 de dezembro de 1862”. Podemos assim acreditar, alegremente, que este acontecimento teve um final feliz…

Além deste livro, há ainda outro livro de Assentos dos Expostos, de um período cronológico anterior, 1841-1856.

Para mais informações, contacte-nos através do e-mail: arquivo@cm-almeida.pt

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