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Autor do mês de junho

Junho 7 @ 9:00 - Julho 31 @ 17:30

Alcides Augusto do Pereiro

Nasceu na rua do Seixo em Almeida, no dia 3 de abril de 1929, «numa casa rasteira de telha vã, que ficava pegada ao matadouro, em frente ao antigo Quartel da Cavalaria. Comparada com as casas de hoje, não era maior que uma divisão, pois não teria mais que vinte metros quadrados. Vivíamos nessa casa eu, a minha mãe e mais um irmão e uma irmã. A minha mãe não tinha leite e, por isso, eu fui criado numa teta emprestada por uma vizinha que tinha um filho da minha idade. Com medo que me trocassem, a minha mãe marcou-me com um sinal.» Naquela casa foi criado e ali viveu até aos oito anos, depois mudaram-se para outra «casita, junto à muralha».

Alcides tinha sete meses quando o pai, militar do Regimento 17, morreu. Após a morte do pai, a sua família passou a viver com muitas dificuldades… Frequentou a escola do professor Abel Pires até à terceira classe, mas teve de a deixar «porque estudar mais já não podia. Não havia posses nem para os ricos. Pois até os chamados ricos, não eram assim tão ricos para mandar os filhos a estudar. (…) Nos primeiros anos, a minha vida foi muito difícil. Mas eu considero que tive uma infância feliz, pois vivia em liberdade».

Depois de deixar a escola, foi aprender com muito gosto e prazer a «arte de carpinteiro» para a oficina do padrinho, o Sr. Joaquim Valentim, profissão à qual se dedicou toda a sua vida – aos dezanove anos já tinha uma carpintaria por sua conta. Dois anos antes, aos dezassete, entrou para os Bombeiros Voluntários de Almeida, onde esteve durante 31 anos. Aos vinte e dois anos casou-se e foi para a tropa: «na tropa tive uma especialidade difícil, mas que gostei muito dela, que era da TSD. Trabalhava na Morse. Éramos noventa e tal a aprender. Ficámos seis apurados. Eu fiquei em primeiro lugar. (…) Depois, fui para a ginástica especial.»

Esteve dezasseis meses no serviço militar, sem trabalhar a madeira, mas não se esqueceu. Depois de se reformar, começou a arte de escultor. Relativamente à primeira peça, testemunhou: «Desenhei-a, mas de modo diferente do desenho que se faz no papel. No papel, é só uma frente. E na madeira é preciso desenhar quatro faces. É preciso desenhar a frente, as laterais e a retaguarda. Eu sabia trabalhar a madeira com os seus feitios, os revessos, o correr, e conhecia os seus segredos. E, claro, sabia alçar as ferramentas, as serras e tudo o resto. Mas muito tive que riscar. E todos os desenhos saíram da minha imaginação».

Em todo este percurso de vida, ainda lhe sobrou tempo para se dedicar à poesia: «tal como as suas esculturas, estes poemas (…) onde não se sente nem agressividade, nem a revolta, nem a vingança, nem o ódio, ajudam a revelar o homem sereno, confiante e agradecido a Deus e à Vida que se exprime na simplicidade da sua poesia» (Luís Queirós).

Maria José Dinis da Fonseca dedicou-lhe o Poema para um homem livre:

Quando fala de si e lembra a vida, / soltam-se-lhe imagens com gargalhadas / de quem saboreou a terra, de pés descalços, / brincando na vila com a garotada. / É um rio de lembranças vívidas, / memórias de um tempo / em que ser pobre, era correr contra o vento / e inventar castelos no chão; / era dormirem cinco na enxerga, / ter a sorte de ir à escola / e ter um pedaço de pão. / Tive sorte em aprender uma arte! / Diz, em voz de gratidão. / Trabalhava com as mãos, / e depois de aprender, / fazia tudo o que vinha da minha imaginação. / Foi carpinteiro e bombeiro; / é poeta e escultor; / um homem que labutou com gosto p’lo trabalhar. / Rejubila ainda agora por todo esse labor / que gosta de recordar. / Este homem, o Senhor Alcides, / tem olhar de quem Viveu / e arte de quem aprendeu, / a ser Livre!

É autor do livro autobiográfico Eu, Alcides: estórias de vida, poemas e esculturas, editado em 2018 pela Âncora Editora e pela Fundação Vox Populi, disponível para consulta e à venda na Biblioteca Municipal Maria Natércia Ruivo.

Detalhes

Início:
Junho 7 @ 9:00
Fim:
Julho 31 @ 17:30
Categoria de Evento:

Local

Biblioteca Municipal Maria Natércia Ruivo
Rua Conselheiro Hitze Ribeiro 8
Almeida, 6350-125 Portugal
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