Artista Miriam Rafael Sampaio

Durante esta semana, estão a decorrer várias intervenções performativas contemplativas em vários pontos de Almeida da artista Miriam Rafael Sampaio

Artista interdisciplinar e investigadora, cuja investigação foi feita em vários arquivos, inclusivamente o Arquivo Municipal de Almeida.

“Meu fado” é o nome deste projeto, sobre o qual escreveu Miriam Sampaio o seguinte texto: O ponto de partida de uma elaboração crítica é a consciência do que se é realmente, e isso é “conhecer-se a si mesmo” como um produto dos processos históricos até à data, que depositaram em nós uma infinidade de vestígios, sem deixar um inventário… Portanto é imperativo à partida compilar esse inventário. Antonio Gramsci

Sou uma artista interdisciplinar que trabalha principalmente, mas não exclusivamente, com filme e fotografia analógicos, vídeo, fotogravura e instalação; e sou também investigadora.

A minha prática artística e investigação textual centram-se na criação de contra-narrativas a partir de traumas transgeracionais, pessoais e sistémicos: o desvelar de segredos, as relembranças ancestrais/familiares, a resistência, a revelação do traço exílico contínuo, criando um inventário para esses elementos. Dentro de um traço reside uma invisibilidade que depende da luz para ser testemunhada.

Toda a minha investigação de arquivo ocorre em arquivos e bibliotecas portuguesas, explorando os recantos menos conhecidos destas instituições.

meu fado são intervenções performativas contemplativas que terão lugar durante a semana de 28 de Janeiro, em vários pontos de Almeida. Algumas performances ocorrerão dentro de uma casa que pertenceu aos meus antepassados, localizada na Praça São João. Outras terão lugar no exterior, sendo visíveis para os residentes que vivem e trabalham em Almeida.

Sou descendente direta de Jaime Elias Pingarilho Sampaio (Évora) e Irene Marques Martins (Lisboa); Neta de Bernardo Rafael Sampaio (Évora) e Francisca Inácia Xavier (Évora Monte); Bisneta de Francisco Rafael de Sampaio (Almeida) e Maria da Conceição (Marmeleiro); Trineta de Custódio Rafael de Sampaio e de Maria Bonifácia Pinta Moreirinhas, ambos de Almeida (filha de Francisco António Moreirinhas e Bonifácia Maria Pinta); Tetraneta de Rafael de Sampayo e de Maria Joaquina das Neves Ferreira, ambos de Almeida (filha de Vicente José Ferreira e Antónia Joaquina); Pentaneta de Francisco de São Payo e Maria Antónia, ambos de Almeida (filha de José de Cunha e Antónia Maria); E, finalmente, hexaneta de Manoel de S. Paio, soldado (Vilar Seco, Viseu), e de Águeda Maria (Almeida).

Os espectadores poderão testemunhar-me a intervir diretamente nos espaços arquitetónicos de Almeida, utilizando o meu corpo físico. Estes gestos centram e incorporam a questão: Onde começa e termina o meu deslocamento/exílio/não-pertença? Como é que o meu corpo se sente ligado à paisagem?

Numa intervenção em particular, estarei explicitamente a homenagear os meus antepassados. É aqui que a linguagem me falha. Não consigo explicar o quão importante isto é para mim. Sem eles, eu não estaria aqui. No cemitério ‘abandonado’, onde não existem lápides para nenhum dos meus antepassados, colocarei cartões no solo com os seus nomes, as datas de nascimento, casamento e morte, juntamente com os nomes dos seus pais e avós. Este cemitério guarda gerações dos meus ascendentes, profundamente enterrados no seu solo sagrado, mas sem qualquer marcador da sua existência, é como se as suas vidas tivessem sido apagadas ou esquecidas. Dentro do cemitério e além das suas muralhas, estes marcadores serão uma forma de honrar as suas vidas. Tudo será iluminado por velas. Suzete Marques cantará durante toda esta intervenção.

Terão também a oportunidade de testemunhar James Holcombe, colaborador de meu fado, cineasta e amigo próximo, a filmar todas estas intervenções artísticas. meu fado será depois uma exposição de instalação cinematográfica em multi-ecrã.

Trabalho arduamente para tornar a minha prática artística e a minha investigação textual acessíveis a todos. Por isso, juntamente com este texto, os espectadores terão também acesso a mais de 350 nomes que estão escritos nos cartões. Este texto e a lista de nomes serão distribuídos por vários locais em Almeida. Por favor, notem que a lista de nomes não é exaustiva, e que a minha investigação está em curso.

Se tiverem perguntas sobre os nomes ou documentos, ou se presenciarem algumas destas intervenções, sintam-se à vontade para me abordar após as performances e perguntar o que quiserem. Só vos peço que o façam apenas depois das performances estarem concluídas. Obrigada por isso.

Aguardo com entusiasmo a oportunidade de interagir convosco.

Obrigada.

Antes de mais, gostaria de agradecer aos meus primos Zezinha e ao seu filho Jorge Moreirinhas por me acolherem na sua família após 131 anos de separação.

Quero também agradecer à Suzete Marques por todo o apoio administrativo e criativo na elaboração deste projeto, à Paula Sousa, Jorge Moreirinhas e à Câmara de Almeida por me darem acesso a uma das casas dos meus antepassados, localizada na Praça S. João.

Agradeço igualmente às muitas pessoas que me fizeram sentir bem-vinda em Almeida.

O meu apreço por todos é enorme!

E, por fim, ao James Holcombe, amigo, colega e cineasta, que tem feito parte da minha prática artística há anos. Obrigada por todo o seu contributo, apoio e paciência durante estes empreendimentos, muitas vezes dolorosos.

Bem-hajam.

Texto de Miriam Rafael Sampaio
Tradução de Isabel Machado

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