Do Seminário Patriarcal ao aparecimento do Conservatório de Música de Lisboa – iniciação da disciplina de flauta
Durante os reinados de D. José I e D. Maria I verificou-se que, apesar de terem surgido no meio musical português instrumentistas do mais alto nível europeu, estes estavam na sua maioria ao serviço da Orquestra da Real Câmara, e que nem sempre foram aproveitados os seus serviços no ensino público. Isto quer dizer que as políticas e as reformas institucionais que sustentaram o Seminário Patriarcal não contemplaram a inserção destes instrumentistas nos seus quadros, como foi o caso de Rodil. É de notar que com o acentuar da crise do regime absolutista e toda a sua política cultural, o próprio Seminário, assim como outras instituições musicais, como o caso da Escola de Santa Catarina, entrariam neste período num certo declínio. Alguns factores estiveram na origem desta situação: a importância central que ocupava a ópera italiana, as ideologias políticas do Marquês de Pombal, que causavam um permanente conflito com as ordem religiosas, e o próprio terramoto de 1755, que levaria a deixar a recuperação institucional e estrutural do Seminário para segundo plano em face da prioridade das reformas pombalinas. Perante este enquadramento, e com ordem legal de 2 de Maio de 1822, o Seminário Patriarcal recebeu ordens para encerrar as suas portas e viria a ser extinto em definitivo em 1833. Os professores deste estabelecimento foram transferidos para a nova estrutura de ensino musical, ou seja, a Aula de Música na Casa Pia, criada por decreto-lei de 28 de Dezembro de 1833. Como comenta António Vasconcelos (2002, p. 48), este núcleo constituiria o futuro Conservatório de Música de Lisboa, que viria a ser fundado por D. Maria, por decreto-lei de 5 de Maio de 1835.
O Conservatório de Música iria ficar incorporado numa estrutura maior, isto é, fazendo parte do Conservatório Geral da Arte Dramática, tendo como seu reitor Almeida Garrett. O modelo adoptado seria o do Conservatoire National de Musique et de Declamation de Paris, que abrangia três escolas: Escola de Música, Escola de Declamação e a Escola de Dança. O Conservatório não iniciou de imediato as suas actividades, existindo apenas matrículas de alunos a partir de Dezembro de 1837. As primeiras candidaturas localizadas nos Livros de Matrículas dizem respeito ao ano lectivo de 1838/39. As disciplinas que estavam em prática eram as seguintes: Canto, Piano, Rebeca, Violoncelo, Rebecão grande, Clarinete, Oboé, Flauta, Trompa/Corn., Trombone e Rudimentos. Neste período, a disciplina de Flauta e Flautim esteve a cargo do professor Francisco Kuchenbuch, leccionou a disciplina de flauta no Seminário Patriarcal, onde terá dado entrada em 1824. Para além da cadeira de flauta, também estava sob sua responsabilidade a leccionação de outros instrumentos de sopro, entrou para o Seminário Patriarcal como Professor de Instrumentos de latão, uma designação para todos os instrumentos de bocal, nomeadamente Trompa, Clarim e Trombone”. Kuckenbuch para além de ter alunos inscritos nas aulas de Trompa/Corn e Trombone, tinha sete alunos inscritos em Flauta. É de salientar que a disciplina de flauta foi a mais concorrida, depois das tradicionais disciplinas de piano com onze alunos, sob a regência de Francisco Migone e a Rebeca com nove alunos, do professor Vicente Mazoni.
Kuckenbuch poderá não ter sido um especialista da flauta traversa; porém, o seu domínio, enquanto instrumentista de sopros, garantiu-lhe o assegurar da disciplina de flauta, até 1840.
Ainda de assinalar, a criação do conservatório para o ensino da música em Lisboa é fortemente devida ao compositor português João Domingos Bomtempo (1775-1842), que era igualmente um pedagogo de reconhecido mérito. Quando regressou a Portugal (1834), Bomtempo pôs em prática a reforma do ensino musical em Portugal, com base nos contactos que foi fazendo no estrangeiro e com a observação das respectivas reformas de ensino musical, tanto em França como na Inglaterra.
Imagens
Antigo edifício do Conservatório Nacional, hoje sede da Escola de Música do Conservatório Nacional
Salão nobre do conservatório nacional
Flauta de 1 chave – Friedrich Haupt (c.1720-c.1811), coleção privada de D. Thomas, Texas, EUA.
Flauta cônica com o sistema de Boehm (1832).
Referências Bibliográficas:
BRITO, Manuel Carlos de; CRANMER, David. Crónicas da vida musical portuguesa na primeira metade do século XIX. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1990.
FUENTE, Maria José de La. J. Domingos Bomtempo e o Conservatório de Lisboa. Lisboa: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 1993.
SAGUER, João. História da Flauta e os Flautistas Célebres. Lisboa: Editora Gráfica Portuguesa, 1940.
VASCONCELOS, António. O Conservatório de Música – Professores, Organização e Políticas. Lisboa: Instituto de Inovação Educacional: Ministério da Educação, 2002. VIEIRA, Ernesto. Diccionário Biographico de Músicos Portugueses. Lisboa: Tipografia Matos, Moreira e Pinheiro, 1900. 2 v.








