A Moda Feminina Império de inícios do XIX – Origens e Influências
O ano de 1800 anunciou um novo século e um novo mundo. O cenário de moda estava a mudar de forma drástica e rápida em relação aos estilos da geração anterior. A Revolução Francesa derrubou a velha hierarquia mundial, alterando para sempre o modo de vestir durante a década de 1790. A peça de vestuário que despoletou esta mudança foi, curiosamente, a Chemise à la Reine, protagonizado por nada mais do que a própria rainha de França, Marie Antoinette, num retrato de 1783. Um vestido escandaloso à época pela sua informalidade, mas que rapidamente se torna popular e se generalizam na Europa no fim da centúria. O neoclassicismo torna-se em voga. O novo estilo clássico, imitando as vestes das antigas democracias, parecia ser evidência de uma filosofia política em ascensão. Os largos saiotes, os espartilhos afunilados e as sedas estampadas do século XVIII fundiram-se num vestido neoclássico que revelava o corpo natural, com cintura subida e musselinas leves e drapeadas. As mulheres elegantes procuravam conscientemente reproduzir as supostas modas da Grécia ou Roma Antigas. Tudo, desde os penteados aos xailes drapeados, evocava a antiguidade. A preeminência do branco como cor de vestuário deveu-se, em parte, à suposição incorreta retirada da estatuária clássica de que as mulheres usavam apenas branco.
No entanto, o neoclassicismo não foi a única influência na moda durante o século XIX. Notavelmente, as campanhas de Napoleão Bonaparte trouxeram inspiração de todo o mundo. Por exemplo, a sua ocupação do Egito popularizou os turbantes como trajes de noite. No final da década, a ornamentação espanhola, como mangas cortadas e o uso intenso de peles importadas da Rússia, Polónia e Prússia, foi o resultado das incursões de Napoleão nestes países. Os ornamentos góticos começaram a aparecer por volta de 1810, e também foram vistos elementos fantasiosos de vestuário pastoral. Os vestidos sofreram alterações graduais durante o século XIX, perdendo muito do volume arredondado que tinham da década anterior. Nos primeiros anos, as caudas longas eram comuns nos vestidos da moda, tanto para uso diurno como noturno, mas começaram a desaparecer gradualmente por volta de 1807. Em 1810, as saias já eram muito mais direitas, e o volume que restava na saia concentravase na parte de trás, enquanto a parte da frente era plana, caindo diretamente no chão. O aspeto mais reto e esguio da moda império também se refletia nas costas do corpete, um formato distinto de “losango”, dando um efeito de costas pequenas. Os tecidos do século XIX eram frequentemente enriquecidos com bordados. Fios brancos, coloridos e dourados eram utilizados para decorar vestidos com uma variedade de desenhos bordados. Embora o branco fosse, sem dúvida, a cor mais elegante para os vestidos, a sua manutenção era difícil e dispendiosa. Os algodões estampados mais resistentes, em várias cores, eram usados no dia-a-dia, enquanto as sedas eram comuns em ocasiões formais. Uma discussão sobre os têxteis do século XIX ficaria incompleta sem mencionar o ressurgimento da seda francesa. Em 1804, Napoleão declarou o Império, tornandose Imperador, e fez renascer o luxo e a pompa do Antigo Regime, instituindo novamente trajes luxuosos da corte. A indústria da seda foi impulsionada através de um decreto imperial determinando que apenas seda francesa deveria ser utilizada em cerimónias formais. Só as comissões imperiais salvaram a indústria da moda francesa, que tinha sido dizimada durante a Revolução. Embora Paris fosse o centro da moda feminina, os melhores algodões eram originários da Grã-Bretanha e da Índia; Napoleão proibiu o uso de algodão estrangeiro para estimular a manufatura francesa. A sua esposa, Josefina, era a mulher mais elegante da época, a líder indiscutível da moda, e negociava habilmente as contradições de uma moda que preferia a musselina simples com as exigências do traje da corte.
Antes do despoletar do estado de guerra entre nações, e mesmo após a partida da corte portuguesa para o Brasil em 1807, a realeza e nobreza portuguesa seguiam, no geral, a moda francesa, usando luxuosas sedas nos seus trajes de corte.
Apesar disto, é curioso verificar a predileção que D. Carlota Joaquina detinha pela musselina de algodão, conhecida por escolher envergar “demasiadas vezes” vestidos de musselina em ocasiões consideradas demasiado formais para corte.
Imagem 1 – WOODWARD, George Murgatroyd – The Fashions of the Day, or Time Past and Present, 1807.
Imagem 2 – LE BRUN, Élisabeth Louise Vigée – Porträt von Marie Antoinette im Musselinkleid, 1783.
Imagem 3 – GÉRARD, François – Portrait de Joséphine, 1801.
Imagem 4 – SEQUEIRA, Domingos. – Retrato de D. Carlota Joaquina, Rainha de Portugal, 1802-1806.
Referências Bibliográficas:
BYRDE, Penelope (1992) – Nineteenth Century Fashion. London: Batsford;
FOSTER, Vanda (1984) – A Visual History of Costume: The Nineteenth Century. London: BT Batsford; LE BOURHIS, Katell [ed.] (1989) – The Age of Napoleon: Costume from Revolution to Empire 1789-1815. New York: The Metropolitan Museum of Art.









