As Cores do Cerco de Almeida: Identidade Visual e Diferenciação Militar no Contexto das Invasões Napoleónicas
Durante o período das Invasões Napoleónicas (1807–1811), a utilização sistemática da cor nos uniformes militares teve uma função central na organização táctica dos exércitos, na construção da identidade das unidades e na comunicação visual em campo de batalha. A clareza visual permitia distinguir aliados de inimigos, facilitava o comando e contribuía para o moral das tropas. Esta importância é particularmente evidente no caso do Regimento de Infantaria N.º 23, unidade sediada na praça-forte de Almeida, que participou ativamente no conflito. O uniforme do Regimento N.º 23 era composto por três cores distintas: vermelho vivo, azul ferrete e azul claro. O vermelho , presente nos detalhes da casaca, vivos, forro e laços, estava em linha com a tradição militar portuguesa e europeia de uso de cores vivas. A par com o azul eram as cores da Coroa Portuguesa, representadas nos laços das barretinas que utilizavam os soldados. O azul ferrete, um tom escuro de azul tendente ao púrpura, revestia o maior do uniforme, conferindo sobriedade e autoridade à figura do soldado. O azul claro, presente nas golas e nos canhões das mangas, acrescentava contraste e permitia rápida identificação visual da unidade, particularmente útil em combate.
Estes elementos visuais não só distinguiam o regimento no seio do Exército Português, como também eram essenciais para evitar confusões no campo de batalha, onde múltiplas unidades e nacionalidades operavam em conjunto ou em confronto direto.
No âmbito das Invasões Napoleónicas, os principais exércitos presentes na Península Ibérica apresentavam códigos cromáticos distintos: O Exército Português, após a reorganização de 1808 liderada por oficiais britânicos como Beresford, adotou o azul escuro (ferrete) como base geral, com cores específicas para cada regimento nos vivos, nos forros, nas golas e nos canhões das mangas. O Exército Britânico era facilmente identificável pelas suas casacas vermelhas escarlates, associadas à infantaria de linha, com calças brancas ou cinzentas e acessórios negros ou dourados. O Exército Francês utilizava uniformes de azul escuro, geralmente acompanhados de calças brancas e elementos vermelhos, refletindo a estética imperial pós-revolucionária. O Exército Espanhol, embora heterogéneo, mantinha como cor tradicional o branco, especialmente nas casacas, com variantes em azul, vermelho ou amarelo. As milícias e guerrilhas populares, especialmente ativas em território nacional e em Espanha, não possuíam uniformes padronizados. Utilizavam vestuário civil com insígnias improvisadas, faixas ou chapéus identificativos. A distinção visual era, portanto, uma necessidade estratégica, além de um meio de reforçar o espírito de corpo. O Regimento N.º 23, nas cores que envergava, representava não só uma identidade local (ligada à praça de Almeida), mas também a resistência nacional frente à força invasora francesa durante as campanhas das Invasões Napoleónicas.
Referências Bibliográficas:
Esparteiro, A. (1947). História do Exército Português. Lisboa: Estado-Maior do Exército.
Chartrand, R. (2000). Portuguese Army of the Napoleonic Wars (Vol. 1–3). Osprey Publishing.
Oman, C. (1902–1930). A History of the Peninsular War. Oxford: Clarendon Press.
Elting, J. R. (1988). Swords Around a Throne: Napoleon’s Grande Armée. New York: Free Press.
Blond, G. (2001). Napoleon: The Conquest of Europe. London: Cassell & Co.
Museu Militar de Lisboa – Catálogo de Uniformes Históricos (coleção permanente). Pires, A. J. T. (1999). O Sistema de Defesa da Fronteira Portuguesa na Beira Interior: 1800–1810. Coimbra: CEIS20.







